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Cresce na Europa movimentos conspiratórios sobre a Covid e sinal de alerta é ligado em serviços de inteligência

 

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Foto: STEFAN WERMUTH / AFP

“Não é um vírus”, diz Monique Lustig segurando um guarda-chuva cheio de mensagens contra a vacinação em holandês. Na Alemanha, Hellmuth acrescenta: “Covid é uma fábula da máfia financeira internacional”. “E se estivéssemos realmente num filme?”, pergunta o francês Christophe Charret.

De Haia a Stuttgart, passando por Paris, todos eles afirmam estar lutando contra o “controle de mentes”, contra as redes “pedófilas”, contra a “plandemia” inventada por uma elite governante com planos sombrios.

Eles se consideram defensores de um “discurso alternativo” às verdades oficiais e seguem o exemplo do movimento de teoria da conspiração QAnon americano para expressar a sua visão conspiracionista dos assuntos candentes nas redes sociais.

Expulsos do Twitter e do Youtube, eles se sentem perseguidos. Optaram por plataformas secundárias para trocar informações – na sua maioria falsas – que, segundo eles, são ocultadas pelos meios de comunicação “mainstream”.

Acompanhamos durante meses estes viveiros conspiratórios na Europa.

Entre eles há membros do QAnon, fundamentalistas protestantes, antivacinas, populistas de direita, terapeutas alternativos, homens de negócios, artesãos, desempregados, e até médicos.

Uma equipe heterogênea que está em plena ascensão preocupa os serviços de inteligência, que temem desestabilidades à democracia.

— A conspiração está florescendo nas redes sociais, vemos que está também organizando células clandestinas. É obviamente uma ameaça — adverte o coordenador nacional dos serviços secretos franceses, Laurent Nunez, que reconhece que as teorias de QAnon chegaram à França.

Nas redes sociais, os grupos europeus QAnon, ou ligados a eles, surgem e se juntam. Os Décodeurs da França têm mais de 30 mil assinantes no aplicativo de mensagens Telegram. Figuras da conspiração alemã como Attila Hildmann e Xavier Naidoo têm mais de 100 mil seguidores; e o britânico Charlie Ward, que difunde propagandas pró-Trump a cada quinze minutos, atingiu quase 150 mil.

— Há um coquetel molotov em marcha: o enfraquecimento do tecido socioeconômico, um forte movimento de expressão contestada em plataformas digitais, onde é fácil transmitir discursos conspiratórios, e o calendário eleitoral — afirmou uma funcionária dos serviços secretos da França.

— Estes são movimentos que surgiram há mais ou menos dez ou quinze anos. São alimentados por uma conspiração antissistema. Há uma porosidade com grupos de extrema-direita — diz um alto funcionário dos serviços secretos franceses que reconhece que o que é novo é a inclusão de “pessoas de origens bastante variadas”.

Esses pensamentos podem destruir famílias que se sentem impotentes perante a adesão dos seus entes queridos. Foi isto que aconteceu a Paulo (o nome foi mudado), que contou sobre o lento tendencionamento da sua mãe “para o outro lado”.

— Ela vivia em reclusão, passava um tempo incrível na internet a procura de respostas à sua raiva contra a injustiça do mundo. Ela consumia YouTube 24 horas por dia, os canais de conspiração eram a sua única janela para o mundo — diz o livreiro de 48 anos.

— O confinamento foi a cereja no bolo. A Covid foi a confirmação de todas as suas teorias sobre o fim do mundo — acrescenta ele.

Obsessão com Bill Gates

Estamos em meados de março, no pacato vilarejo de Uithoorn, no sul de Amsterdã. Lange Frans desdobra a sua fita métrica e, bem apressadamente, nos convida a entrar no seu estúdio de gravação.

— Aqui não há máscara — solta, sarcasticamente, o rapper que chegou a ser conhecido nos anos 90.

Entre duas metáforas musicais, conta, orgulhosamente, do “show clandestino”, sem medidas de distanciamento social, do qual participou no dia anterior.

Já há alguns anos, seus podcasts têm sido um sucesso na Holanda. Durante duas horas, o cantor conversa com uma personalidade para dar uma visão “alternativa” sobre assuntos correntes: Covid, acidente do avião MH-370, pedofilia, OVNIs… Tem espaço para tudo.

— Siga o rastro do dinheiro — fala Lange Frans entre cartazes de Bob Dylan e guitarras.

— Tomemos o caso de Bill Gates. As pessoas devem descobrir sobre ele, que não tem nenhum diploma médico nem experiência em vacinas. A única razão pela qual recebe tanta atenção é porque tem dinheiro — diz o cantor em inglês impecável.

Para este jovem de 40 anos, cujo canal do YouTube é frequentemente suspenso, a Covid é uma “novela” e uma “gripe exagerada” de que os meios de comunicação social não param de falar.

Ceticismo

Naquele mesmo domingo, véspera das eleições parlamentares holandesas, 3 mil pessoas reuniram-se na cidade de Haia contra as restrições anti-Covid. Um carnaval vigiado de perto pela polícia.

Semanas antes, a Holanda sofreu várias noites de tumultos violentos após impor toque de recolher obrigatório.

Participaram das manifestações ativistas do populismo, pessoas que denunciam um governo mundial e defensores dos medicamentos naturais.

Estavam unidos por um denominador comum: ceticismo em relação ao discurso oficial sobre a pandemia do Covid-19.

— Não é um vírus, é uma ferramenta para uso do poder. A elite mundial se organizou. Muitos pensam que é muita loucura para ser verdade, mas trabalharam nisso por mais de 20 anos — diz a restauradora Monique Lustig.

Um pouco mais longe, Jeffrey, um estudante de 21 anos, distribui folhetos denunciando o “Grande Reset”, plano do Fórum Econômico Mundial para relançar a economia depois do Covid-19, que esconde, segundo ele, o controle da liberdade e a subjugação da população.

Quem criou a pandemia? Cada um dá uma resposta diferente, mas geralmente citam dois avatares do capitalismo global: o organizador do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, e Bill Gates.

— A elite global está se aproveitando da situação para criar uma nova sociedade. Somos milhares aqui convencidos de que não é uma pandemia — acrescenta Ard Pisa, um antigo banqueiro que se tornou defensor da medicina alternativa para curar o câncer.

— Oito milhões de crianças desaparecem todos os anos. Isto faz parte do nosso mundo, não devemos fechar os olhos, há muitos casos de pederastia que passam despercebidos — continua, abordando um dos temas favoritos dos apoiadores de QAnon.

Este número, frequentemente reportado pelas ONGs de proteção da criança, inclui. na realidade, todos os desaparecimentos denunciados, dentre os quais estão os que fogem, que na grande maioria dos casos são encontrados.

Estado profundo

A manifestação em Haia não é uma exceção na Europa. Os protestos contra as restrições antiviolência incluem sistematicamente muitos seguidores de teorias conspiratórias.

Na Dinamarca, membros do grupo “Homens de Preto” afirmam que o coronavírus é um “esquema”. Em Berlim, as bandeiras de QAnon são vistas com frequência nestes comícios, que podem reunir até dez mil pessoas. Um punhado deles até tentou forçar entrada no Parlamento em agosto passado.

De acordo com um inquérito publicado em Setembro de 2020, um terço dos alemães acredita que as “potências secretas” controlam o mundo.

Os tópicos favoritos de QAnon são ingredientes básicos deste pote de conspiração.

— QAnon é um ponto de encontro para grupos de extrema-direita, pessoas que acreditam em OVNIs, pessoas que pensam que 5G será usado para controlar pessoas — explica Tom de Smedt, um investigador belga que foi autor de vários estudos sobre a ascensão do movimento na Europa.

A opinião pública tomou consciência da existência deste movimento, nascido nos Estados Unidos, durante a invasão do Capitólio em janeiro.

O seu nome vem de mensagens crípticas postadas por um certo “Q”, supostamente um alto funcionário norte-americano próximo de Trump. Muito ativo nos Estados Unidos desde 2017, ele defende a ideia de que um “Estado profundo”, pilotado por um punhado de elites, governa a ordem mundial.

O falso escândalo Pizzagate, em que os democratas foram acusados de estarem à frente de uma arena de pederastia, é um dos fundamentos da sua luta.

Inclusive agora, uma das suas últimas falsas notícias circulando se refere ao mesmo assunto: mais de mil crianças foram libertadas dos porões do navio “Ever given” que bloqueou o Canal do Suez, como parte de um tráfego internacional encorajado por Hillary Clinton.

‘Ponto de inflexão’

— As mensagens de Q são a bíblia do conspirador — diz Christophe Charret com um sorriso.

Este homem de negócios afável e atlético que recebe a reportagem na sua casa moderna nos subúrbios de Paris define-se como um “conspirador moderado”.

São quase 20h e o primeiro-ministro Jean Castex acaba de anunciar que o confinamento será prorrogado em parte da França. Mas na sala de estar de Charret, a televisão foi desligada.

Tudo está acontecendo no seu pequeno escritório, na sótão, onde se prepara para falar sobre as notícias da Aliança Humana, uma associação com 12 mil assinantes na rede Telegram que decifra assuntos correntes por meio de um prisma conspiratório.

Ao som de música digna dos filmes de Hollywood, as imagens seguem uma após a outra de modo bem acelerado: Kennedy, 11 de setembro, 5G, vacina, Donald Trump, o epidemiologista francês Didier Raoult, e, claro, Bill Gates.

— O mundo é gerido por um conglomerado financeiro-tecnológico que controla a soberania do povo. A tecnologia torna possível fazer coisas preocupantes, o controle da consciência, particularmente, não é um mito —diz Charret, atrás dele está um “Q” feito de guirlanda luminosa.

Nessa noite, em um vídeo com cerca de 30 mil visualizações, ele interveio para falar sobre as vacinas, Joe Biden, e os esforços humanitários da associação para angariar fundos para os estudantes necessitados.

— Estamos em um ponto de inflexão no mundo, dois lados estão guerreando e aqueles que seguram as rédeas não são nossos amigos. E farão tudo o que estiver ao seu alcance para não as largarem, mas há forças trabalhando para um futuro Dia D — conclui, insistindo no empenho pacífico e na rejeição da violência.

Replicagem no Telegram

Na Europa, os chamados QAnon são bastante discretos e escassos. A administração do movimento permanece profundamente americana. Mas os seus herdeiros no Velho Continente assumiram a base ideológica.

— Todos os QAnon europeus apoiam a narrativa oficial, sobretudo apoio a Trump e às ideias de extrema-direita, porém cada grupo adapta estas mensagens aos interesses locais — aponta o diretor de estratégia da empresa israelita de cibersegurança ActiveFence, Nitzan Tamari.

— Entre os tópicos sobre os quais existe consenso entre os diferentes grupos, encontramos a Covid-19 e as conspirações de vacinas que constituem a maior parte das mensagens trocadas, mas também se trata das conspirações sobre o estado profundo e a pedofilia — explica o israelita.

— QAnon é como um caranguejo ferido que se retira para dentro da sua carapaça. O Twitter fez um tremendo trabalho apagando contas — recorda o investigador Tom de Smedt.

Mas esta varredura digital não atingiu as raízes do sucesso destas teorias.

— Há um sentimento de raiva que não é de esquerda ou de direita, mas anti-elite. E esse sentimento não desapareceu — acrescenta Tom de Smedt.

Contaminação do debate público

O número de rumores que se difundem entre os grupos de Telegram espalha-se frequentemente a partir deste “núcleo duro” e acabam chegando à opinião pública.

Em janeiro, na Alemanha, em um formidável estudo de caso de propagação de fake news, milhares de mensagens denunciaram subitamente em várias redes a intenção de criar “salas de masturbação” para menores em num jardim de infância de Teltow, ao sul de Berlim.

A informação, divulgada por centenas de funcionários eleitos do partido de extrema-direita AfD, levou um deputado da maioria no poder a criticar a iniciativa. Na realidade, tudo isto resultou de um artigo de jornal local cujas citações mal interpretadas foram amplificadas exponencialmente nas redes sociais.

Na França, o documentário Hold-Up — uma confusão de quase três horas de relatos conspiratórios por médicos, deputados, investigadores e sociólogos — tem sido visto por vários milhões de pessoas.

Denominada por muitos funcionários eleitos da maioria governamental como “propaganda de complô”, tornou-se uma referência para todos os céticos, independentemente da sua orientação política.

Em 2019, um estudo da Fundação Jean Jaurès mostrou que o eleitorado de Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, é de longe o mais permeável às teorias da conspiração.

A bênção dos populistas

Na Holanda, após uma campanha centrada na hostilidade, a formação populista Fórum para a Democracia quadruplicou o seu número de assentos nas eleições legislativas.

Em Urk, uma pequena cidade no ultraprotestante “Cinturão Bíblico”, onde o sarampo ainda assolou em 2019, o Fórum subiu para o terceiro lugar.

Tal como o Fórum, alguns partidos populistas europeus não abraçam oficialmente a retórica do complô, mas mantêm um discurso ambíguo e apelativo o suficiente para este eleitorado frequentemente enojado com a política.

— As pessoas aqui têm dúvidas sobre a vacina. Há razões médicas – os seus efeitos são desconhecidos – mas também religiosas. Acreditam em Deus ou na vacina? Podemos interferir com os planos de Deus? — pergunta o Reverendo Alwin Uitslag, que dá as boas-vindas à reportagem na sua casa localizada junto a uma das muitas igrejas do vilarejo.

Longe do mar, a 500 km de Urk, Christina Baum está fazendo campanha à luz do sol no estado de Baden-Württemberg, o bastião alemão de protesto contra as medidas sanitárias.

Alguns dias antes das eleições nesta região, a porta-voz regional de saúde do partido de extrema-direita alemã AfD fala aos seus apoiadores sobre o coronavírus sem máscaras ou tabus.

Um deles, Hellmuth, ataca, dizendo que se trata de “fábula da máfia financeira criminosa internacional”.

Baum recusa-se a contradizer este discurso: na AfD, todas as opiniões são bem-vindas.

Calendário eleitoral

— Com o Covid, teorias de que nunca tinha ouvido falar vieram à luz. E eu acho isso impressionante. O que quer fazer com estas pessoas? Quer dizer-lhes que as isolamos completamente da sociedade? Isso não é possível. Temos de procurar o diálogo com todos — diz Baum.

— Aqueles que votam em partidos de extrema-direita têm uma maior tendência a acreditar em teorias de conspiração ligadas à Covid. Este é o caso de um em cada cinco eleitores da AfD — afirma um relatório de fevereiro de 2021 encomendado por várias ONGs, incluindo a Fundação Amadeu Antonio.

Discursos que encontram eco na França, especialmente entre os “Patriots”, um pequeno partido soberanista cujo líder, Florian Philippot, denuncia todos os sábados em manifestações pelo país o “Coronaloucura”.

Embora esteja limitado a algumas formações políticas populistas e manifestações esporádicas, este coquetel de múltiplos discursos conspiratórios preocupa os serviços secretos europeus.

Na Alemanha, o movimento “Querdenken”, que se opõe às medidas anti-Covid, está sob crescente vigilância em várias regiões devido às suas ligações com movimentos próximos da extrema-direita, cujo discurso desafia a constituição.

— Estamos trabalhando em um grupo de pessoas claramente definido que, constatamos, terem contato com extremistas. As teorias do complô podem atuar como um catalisador para a radicalização e uma porta de entrada para o extremismo — explica um oficial de inteligência em Baden-Württemberg.

Poderiam as teorias da conspiração, que se infiltraram no debate público e nas redes sociais, abrir a porta à desestabilização das nossas democracias?

— Estamos preocupados com a mudança para o ato violento destes indivíduos — diz um alto funcionário dos serviços secretos franceses que culpa “a interferência de informação do Estado russo” no caso das redes “Russia Today e Sputnik”.

Telegram e VK, duas das principais redes sociais onde os plotters se retiraram, partilham os mesmos criadores: os irmãos russos Durov.

— Na Alemanha, recentemente, a atmosfera nas manifestações tornou-se muito mais agressiva — diz o responsável pela segurança pública de Stuttgart.

— Para mim, o mais perigoso não são alguns radicais, mas este tipo de onda de desconfiança crescente em relação às instituições — teme o investigador francês Sylvain Delouvée.

— O desafio é saber se a eleição (presidencial) canalizará ou não esta vontade de expressar protesto — conclui a fonte dos serviços secretos franceses.

A França e a Alemanha irão oferecer uma primeira resposta nos próximos meses.

O Globo

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