4 de abril de 2015

Depois de virar filme e ser preso, Marcelo Rocha quer se livrar de rótulo de maior golpista do Brasil

Laíse Lucatelli
Foto: Laíse Lucatelli/OD
Marcelo Rocha possui um escritório em Cuiabá
Marcelo Rocha possui um escritório em Cuiabá
Condenado por crimes como estelionato, falsidade ideológica, associação para o tráfico e roubo de avião, Marcelo Nascimento da Rocha quer, aos 39 anos, se livrar da alcunha de “golpista”. O reeducando, cuja história inspirou o filme VIPs, protagonizado pelo ator Wagner Moura, vive em Cuiabá com a esposa e a enteada adolescente, onde cumpre pena. Em liberdade condicional há pouco mais de um ano, Marcelo garantiu, em entrevista exclusiva ao Olhar Direto, que leva uma vida totalmente dentro da lei.

“Eu não sou golpista. Eu fui um falsário, fui um estelionatário. Cometi falsidade ideológica mais que estelionato. Então eu sou um ex-falsário. Eu fui um criminoso e continuo pagando pelo meu crime. Ninguém tem o direito de me chamar de golpista, porque estou pagando o que devo. Há jurisprudências que dizem que ninguém tem o direito de tachar uma pessoa e colocar um rótulo porque ela cometeu um crime. Isso vai contra o que prevê a lei”, afirmou.

Reincidente no artigo 171 do Código Penal, Marcelo ficou famoso no país todo ao se passar por Henrique Constantino, filho do dono da Gol Linhas Aéreas, durante o Recifolia de 2001. Sua ação mais emblemática lhe rendeu entrevista no programa de Amaury Jr., fotos em colunas sociais, empréstimo de jatinho e helicóptero, e paparicos de celebridades. E muita exposição negativa na imprensa, após ser desmascarado.

"O crime não compensou"

Marcelo afirma que está recuperado e ressocializado, após passar por presídios em 12 estados, e ter conseguido fugir de nove deles. A última unidade a abrigar o reeducando foi a Penitenciária Central do Estado (PCE), o antigo presídio Pascoal Ramos, em Cuiabá, onde ele conseguiu progressão de pena. Marcelo criticou a discriminação contra quem passou pela cadeia, e disse que atua em uma organização não-governamental (ONG) que ajuda na capacitação e colocação no mercado de trabalho de ex-presidiários.

“Eu não tenho orgulho das coisas que eu fiz, não sou exemplo para ninguém. Mas hoje sou uma pessoa comum. Levanto às 6h da manhã para trabalhar, tenho parceiros de negócios. Parte da sociedade acha que quem passou pela prisão não tem direito a mais nada. Muita gente sai e não arruma emprego porque é tachado como ex-presidiário. Mas as pessoas mudam e merecem ter outra chance. Tem muita gente presa que está a fim de sair e trabalhar. Essas pessoas têm o direito de tentar ter uma vida digna. E eu quero servir como exemplo de que é possível e vale muito mais a pena.

Monitorado 24 horas por dia pela tornozeleira eletrônica do sistema prisional mato-grossense, Marcelo precisa de autorização judicial toda vez que quer sair à noite, descumprindo seu toque de recolher, e também para sair da cidade. Somente em 2014, ele calcula ter feito cerca de 10 viagens a trabalho, para ministrar palestras. Ele diz não se incomodar com a vigilância que sua liberdade condicional exige, e afirma que o crime não compensa.

“A vigilância no meu caso é muito rigorosa, e faço questão que seja. Dessa forma as pessoas sabem que estou fazendo uma coisa lícita. Eu me ressocializei porque não tinha mais nexo permanecer na vida do crime. Eu não aguentava mais. Para mim deu. Não compensou. Mas se o cara que entra no presídio não tiver a mente voltada para a família, para ter uma vida normal, lá dentro ele aprende muito mais coisas. Eu fui preso várias vezes e fugi várias vezes. Só parei quando decidi que aquilo não era vida para mim, porque queria justamente ficar ao lado da minha família”, afirmou.

Palestrante e celebridade

Marcelo diz que prefere sua vida atual ao luxo e badalação que experimentou ao fingir ser outras pessoas. Ele contou que, ao passar o réveillon em Santa Catarina com a família, foi convidado a passear de iate e helicóptero, mas recusou, por não se sentir à vontade nessas situações como antes. "Eu já fiz tudo isso, não tenho mais vontade. A vida que eu tenho hoje não troco por nada. Posso ir ao shopping e à sorveteria tranquilamente com minha família", disse. Marcelo contou, ainda, que diversas pessoas pedem para tirar foto com ele, por considerá-lo uma celebridade.

Seu sustento hoje sai das palestras sobre vendas e técnicas de persuasão que ele ministra por todo o país, bem como dos royalties do filme e de um documentário sobre sua vida. Marcelo informou, ainda, que uma continuação de VIPs deve ser filmada ainda este ano. Além disso, ele está prestes a publicar seu primeiro livro, um romance sobre o sistema prisional chamado Fábrica de Monstros. Ele ainda possui empresa de consultoria e produção de eventos, e ocupa um escritório no bairro Quilombo, na capital, onde ele recebeu a reportagem do Olhar Direto.

“Dou palestras sobre técnicas de persuasão e vendas. Existem muitos palestrantes bons no Brasil, mas eu sou o único que dá palestras porque conseguiu vender o que não existia. Esse é o meu diferencial. Tenho uma vida muito confortável hoje, embora mais simples do que na época em que eu era falsário. Moro num condomínio fechado, tenho um carro zero. Não preciso fazer nada ilícito hoje. Então talvez por isso as pessoas fiquem revoltadas. Uma vez eu vi um comentário no site de uma senhora que mandou eu carpir o quintal dela. Isso é hilário. Eu dou risada.”

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